quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Tele-marketing



O vídeo é anunciado como "hilário", mas na minha opinião é deprimente.
Há coisas que por razões que ainda não sei explicar, me irritam, como o sotaque, ou melhor "sutahque" carioca num jeito de falar afeminado. Separadamente, já me incomodam, juntas tronam-se quase insuportáveis! Mas, creio que isto consista nas minhas veias mais preconceituosas que tenho por obrigação de suprimir para galgar as etapas da civilização. É preciso conviver e enxergar além do comportamento que incomoda, desde que este não seja desrespeitoso. Desta forma, são admissíveis aos meus "desvios de caráter" que uma pessoa tenha uma voz afeminada e acariocada, principalmente se eu levar em conta o meu laconismo proveniente da minha timidez, que torna a minha voz e o meu comportamento tão caricato quanto o da, ou do, atendente de telemarketing, que pelo menos dispensa os corriqueiros "gerundismos".
Pois bem, o que me revoltou neste vídeo é a forma como O ou A atendente é tirada do sério, por uma insistência cuja solicitação não compete a ela. É absurda a necessidade de auto-afirmação do solicitante, a necessidade de impor os seus desejos e fazê-los prevalecer numa atitude violenta e desrespeitosa, julgando ter o poder de decidir quem atende os clientes da empresa. Para completar chega à conversa uma senhora com um comportamento no mínimo vulgar. Diz-se advogada como se esta classe detivesse algum poder que a distinguisse dos demais ofícios "menos díginos" e a permitisse disparates indecorosos contra as pessoas.
Neste ponto do diálogo eu fui tomado por uma ira profunda, afinal, qual é a concepção de um cidadão à respeito do Poder? Quem o detêm no Estado? Os advogados? É mais coerente que os juízes detenham certos privilégios visto que possuem poder de decisão sobre impasses jurídicos, mas advogados, por mais capciosos e orgulhosos que possam ser, detêm apenas o conhecimento que os permite "tratar" uma situação pela ótica legal, como um médico o faz pela ótica biomédica, um engenheiro o faz pela ótica tecnológica e por aí vai. Dominar as ferramentas legais não implica em dominar qualquer cidadão que faz seu trabalho com menos informação formal, muito menos significa impor seus propósitos e opinões sobre ele de forma ameaçadora.
Achei o comentário "Você me conhece? Sou advogada" um insulto a esta classe, da qual espera-se um comportamento mais ético e coerente com as pessoas. É possível notar nos trabalhadores deste ramo uma certa "pompa" que dá a impressão de serem capazes de tudo contra todos, como se dissessem "cuidado comigo", mas este aspecto é latente nos menos preparados para o exercício da função, nos limitados que não distinguem bem o profissional do cidadão. A "pompa" deste ofício pode ser natural, se for levado em conta o rigor legal a que são submetidos e a imagem de respeito e sagacidade que necessariamente está vinculada à um "bom advogado", não lhes dando o direito de sobrepor sua função à do atendente de telemarketing que possivelmente contribui mais para o bem estar coletivo do que o advogado, ou pelo menos assim deveria ser se fossem imediatamente sanadas as expectativas dos clientes.
Por fim, como funcionário público e, na medida do que me é possível, despido do preconceito contra os aspectos fonéticos dos envolvidos no diálogo, deixo a minha revolta nada menos que empática contra os solicitantes. Há um fardo de pésssimo atendimento no setor público e na telemárketing que mesmo os funcinários mais dedicados têm de carregar. Os funcionários públicos são protegidos por lei, mas estes atendentes do setor privado, os mais moderados, são protegidos apenas pela lembrança bocas que aguardam o alimento quando chegam em casa.
Eu, à luz do meu mais baixo nível, responderia à "advogada" o seguinte: "Adira-me que a lei esteja entregue às patas de cadelas sem vergonha! O que estariam fazendo os verdadeiros advogados? Certamente não dando aos outros o exemplar da pobreza de espírito e de civilidade que trás consigo um animal pútrido como este que late ao telefone. Vá procurar a sua mãe e cobrar dela a educação que ela omitiu, quem sabe não lhe põe uma fucinheira para calar esta fossa que chama de boca!"
Preciso confessar que meu mais baixo nível vai muito mais baixo que isto, é uma pena não poderem ouvir meus pensamentos...

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